O cheio do dia


Bati a porta da tortura endoidecida e no banco da entrada estava a lucidez desfalecida, em madeira pura, porque não dizer em ripas nuas. Pobrezinha tão magrinha... que quase vazava pelos espaços que se deixam vazios. Cena indecente, sem entrelinhas. Me arrependi no mesmo instante, que no mesmo instante se distancia, de ser humana. Mentira, nunca questionei minha própria humanidade, verdade, que equívoco dar humanidade para endoidecida tortura. Que tolo bater a sua porta fechada, guardada por formas em forma que se ajustam nas estrelas sem sequer pedir licença a poesia, a arte, e de novo, e por novo, trazem o velho. Que bobagem fragilizar a lucidez se está tudo aí para se ver, se está aqui o mesmo céu estrelado cheio das noites envelhecidas. Não há mais batida a porta, e o que sei da claridade vai apropriando-se das mesmas estrelas ludicamente informes, só para encher o dia de humanidade.

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